Exemplos

Carta de uma Drogada

Olha mãe, vou tentar te escrever para fazer uma confissão, não sei se vou conseguir,

porque minha vista está falhando e eu estou trêmula.

Mãe, neste quarto de hospital, de onde eu sei que jamais vou sair,

olhando estas paredes brancas,

fico lembrando meu quarto que a senhora decorou com tanto gosto,

pois até minhas bonecas a senhora enfeitou,

há como eu achava tudo cafona, tinha até vergonha de levar minhas amigas em casa.

Hoje, quando tudo está perdido para mim,

eu entendo que fazias tudo com muito amor

e eu não dava valor.

Mãe, como te enganei, lembra quando eu dizia que precisava

estudar em grupo na casa de uma amiga?

Foi lá que tudo começou. Eu tinha então 12 anos,

estava meio perdida, descobrindo as mudanças de meu corpo,

descobrindo o mundo. Para muitas coisas eu não estava preparada para viver, queria ser adulta antes do tempo para provar novas emoções,

aí resolvi me drogar. Mãe, você não imagina a sensação de euforia que a gente sente, parece que a gente cresce, torna-se confiante,

capaz de fazer coisas ousadas, como enfrentar perigos, a gente sente-se feliz. Depois,

passa o efeito, novamente nos sentimos sós,

sem horizontes, mais infelizes que antes, aí, nos drogamos novamente,

é um círculo vicioso.

O pior mãe, é que aquelas coisas que sumiam lá de casa e a senhora não sabia quem tirava, era eu que vendia para comprar drogas,

porque no começo era grátis e depois era caríssima, e eu não podia parar...

Porque, porque eu não ouvi à senhora. Lembra quando a senhora me dizia que precisava falar comigo, e eu respondia:

- "Lá vem à velha de novo, você não sabe de nada". Agora eu sei que a senhora desconfiava de alguma coisa, mas não sabia o que era.

Olhando hoje as fotos que me trouxeram quando eu era criança, nossa, como eu era feliz e não sabia você me deu uma vida limpa,

sadia, cheia de amor, e eu, na minha ancia de viver uma vida diferente, cavei minha própria sepultura.

Mãe, como me faz falta a festa de 15 anos que com tanto entusiasmo programaste, e eu disse que não queria festa nenhuma,

que era muito quadrado festa com vestido comprido,

o bolo e outras bobagens. Eu queria dinheiro para comprar coisas de que gostava.

Gastei tudo em drogas e me afundei mais ainda, hoje eu penso como seria lindo, mas, na minha ignorância, perdi tudo.

Como me dói quando me lembro dos passeios que a senhora me convidava para dar e eu não ia, como maltratei você.

Quantas vezes eu vi a senhora brigar com papai para esconder quando eu chegava tarde.

Mãe, eu perdi a virgindade, e nem sei com quem, imagina como eu estava. Depois dos 12 anos eu não vivi, só vegetei.

Não culpo quem me viciou ou quem me vendia drogas, pois fui porque quis, sabia que estava no mau caminho,

e num atestado de burrice eu prosseguia.

Hoje, perdi o apetite, emagreci muitos quilos, não seguro mais minhas necessidades fisiológicas, estou um farrapo humano.

Mãe, não quero que sofras quando eu me for, fizeste o que podia para me salvar, mas eu não quis, agora quando eu me for,

vai ser um alívio para todos. Mas mãe, se alegre, pelo menos agora no meu sofrimento, voltei a crer em Deus, a quem peço perdão.

Mãe quero que queime minhas fotos recentes, onde eu pareço um remendo daquilo que eu era, queime tudo como se eu estivesse com peste.

Mãe não tenho medo de morrer, estou pronta. Só me faça um favor, diga para as minhas amigas parar antes que seja tarde,

e quem não começou,

não experimente, por favor. Quem aconselha é uma jovem infeliz que aos 17 anos não teve mais uma nova chance.

Abraços e beijos da Suzane.

Quem escreveu esta carta para mim foi à enfermeira Bete.

Porto Alegre, 02 de junho de 1995.

Suzana morreu no dia 17 de junho de 1995.

Carta de um viciado

Acho que neste mundo ninguém procurou o seu próprio cemitério.

Não sei como o meu pai vai receber esse relato, mas preciso de todas as forças enquanto é tempo.

Sinto muito, meu pai, acho que este diálogo é o último que eu tenho com o senhor. Sinto muito, mesmo...

Sabe pai, está em tempo de o senhor saber a verdade que nunca desconfiou. Vou ser breve e claro, bastante objetivo.

O tóxico me matou. Travei conhecimento com o meu assassino aos meus 15 anos de idade. É horrível, não, pai?

Sabe como descobri essa desgraça? Por meio de um cidadão elegantemente vestido, bem falante, que me apresentou o meu futuro assassino:

A DROGA. Eu tentei recusar, mas o cidadão mexeu com meus brios dizendo que eu não era homem.

Não é preciso dizer mais nada, não é, pai? Ingressei no mundo do vício. No começo foi devaneio; depois as torturas, a escuridão.

Não fazia nada se o tóxico não estivesse presente. Em seguida, veio à falta de ar, o medo, as alucinações.

E logo após, a euforia do pico: novamente eu me sentia mais gente do que as outras pessoas e o tóxico, meu "amigo" inseparável,

sorria, sorria. Sabe meu pai, a gente, quando começa, acha tudo ridículo e muito engraçado. Até DEUS eu achava cômico,

hoje, em um leito de hospital, reconheço que Deus é mais importante que tudo no mundo.

E sem a sua ajuda eu não estaria escrevendo esta carta. Pai estou só com 19 anos e sei que não tenho a menor chance de viver.

É muito tarde para mim.

Mas ao senhor, meu pai, tenho um último apelo a fazer:

MOSTRA ESSA CARTA A TODOS QUE O SENHOR CONHECE. DIGA-LHES QUE EM CADA PORTA DE ESCOLA,

EM CADA CURSINHO DE FACULDADE,

EM QUALQUER LUGAR,

HÁ SEMPRE UM HOMEM ELEGANTEMENTE VESTIDO, BEM FALANTE,

que irá lhes mostrar o futuro assassino e destruidor de suas vidas e que os levará á LOUCURA e á MORTE,

como aconteceu comigo. Por favor, faça isto, meu pai, antes que seja tarde demais para eles.

Perdoe-me pai... Já sofri demais

Perdoe-me também, por fazê-lo

PADECER POR MINHAS LOUCURAS.

Adeus meu pai.

DEPOIS DE 1 HORA O JOVEM FOI ENCONTRADO MORTO.

Que Deus proteja as pessoas que eu amo

E que elas nunca acabem com suas vidas e

Com as vidas de quem os ama de uma maneira tão covarde.

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