Eu nem pensava mais em você, não com tanta freqüência. Não me iludiam mais suas palavras, não me tocavam mais suas canções, eu não esperava mais nada, não mais fantasiava.

Eu já havia imaginado demais, e viver de utopias não é muito bom. Saudável é viver de certezas definidas e traçadas. Vale mais a pena, vale mais o choro, vale mais qualquer coisa, até a gente passa a valer mais, porque passamos a ter a quem valorizar. E isso nos mantém no jogo.

Eu já estava conformada em viver sem você, em não mais te ver, nem te sentir. Mas parece que tudo conspira contra mim. Mesmo quando não te lembro, alguém cita o seu nome pro meu desassossego. Mesmo se não te encontro, o teu cheiro faz questão de deixar rastros pra quando eu passar me fazer te lembrar. Assim não dá.

Eu só queria de volta a minha segurança, meu autocontrole, meu domínio próprio. Saber onde pisar, pois é a melhor forma de evitar as feridas no caminhar. Prezar pela minha lucidez, porque a vida é uma guerra e nenhum de nós sai ileso dela. Mas constatei com tristeza que sou incapaz, que tenho limites, e que sou vulnerável. Às vezes deixo brechas abertas demais e isso faz com que eu me fira e fira outras pessoas também. É como se eu fosse usada, sugada. Sentimento de ser tomada, ser bebida, comida, mastigada, provada e repetida. Cedi muito, mas a tempo me lembrei que um dia o meu mel acabaria e já não teria nem pra dar, nem pra adoçar a mim mesma. Tornar-me-ia amarga, ácida, por não pensar primeiro em mim e na minha própria sobrevivência. Então preferi assim, ser senhoria de mim, ser minha dona. Ninguém me doma.

Eu só queria não mais precisar de você, não mais me entristecer com sua ausência e tão pouco me incomodar com sua presença. Continuar vivendo como se nada tivesse acontecido, como se eu nada tivesse ouvido e nem mesmo declarado. Queria poder voltar atrás e refazer o meu caminho. Se eu soubesse que me tornaria escrava não teria aberto a guarda. Se eu soubesse que me envolveria não teria me aproximado. Se eu soubesse que não levaria a sério não teria nem começado a brincadeira.

É incrível como você consegue mexer comigo sem me dar nenhum sinal de aproximação real. É incrível como uma só palavra desajeitada dita por você acaba virando poesia arrumada na minha mente. Chega a ser idiota esse meu envolvimento por você, não tem pé nem cabeça, nem olhos, nem ouvidos, nem boca. Perco o controle de todos os meus sentidos quando você chega perto. Fico cega, surda e muda. Confesso que não está mais em meu poder o querer ou não querer. Não depende mais de mim, muito menos de você. Se ao menos de você dependesse, então eu de vez me desligaria, porque você faz tudo o que eu não gosto, e ainda assim me conquista. Você é o avesso do meu gosto, o contrário de tudo o que um dia eu sonhei pra mim. Nem eu sei mais o que ainda me faz escrever. Uma coisa eu sei, que isso não tem futuro, e sabe por quê? Porque não teve passado e o presente não existe pra nós dois. O que existem são momentos salpicados de ilusão, que insistimos em prolongar só pra ver no que pode dar.


Monique Frebell

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